sexta-feira, 12 de maio de 2017

(im) Perfeitas Mães


Sabe quando eu entendi a minha mãe?
Quando eu me tornei uma.
A sua preocupação quando eu não queria comer.
A bronca quando eu dizia "não gosto" sem ter experimentado.
As ligações pro pediatra cada vez que a gente se machucava, ou tinha febre, ou dor de ouvido ou qualquer sinal de que alguma coisa não ia bem.
Todas as vezes que ela nos disse "quem manda nessa casa sou eu", quando não tinha mais argumentos.
Quando, mesmo muito cansada, ela arrumava tempo pra brincar, nos ajudar no tema ou simplesmente, nos dar um colo.
O interesse dela em saber quem eram nossos amigos, os pais dos nossos amigos e saber onde íamos, com quem íamos e que horas voltaríamos.
Todas as vezes que ela tentava explicar a diferença entre o certo e o errado.
Quando ela dormia enquanto contava uma história pra gente dormir.
Quando ela saía para jantar SOZINHA com as suas amigas.
O sua dedicação em organizar as nossas festas de aniversário.
As músicas que ela ouvia.
Os artistas que ela curtia.
Todas as vezes que ela e o pai saíram sem nós.
Todas as vezes que ela teve que negar determinado presente porque era caro demais.
Todas as vezes que ela me colocou no meu lugar.
Todas as vezes que ela queria estar no meu lugar só pra eu não sofrer.
Quando ela desligava o som pra eu me concentrar nos estudos.
Quando ela me dizia umas verdades mesmo sabendo que eu não entenderia naquele momento.
Mas sabe o que eu mais amo na minha mãe?
O fato dela ser (im) perfeita.
Aprendi sendo mãe que nenhuma mãe é perfeita.
Mães sofrem, choram, sentem raiva, falam sem pensar, não sabem todas as respostas.
Sentem medo, são inseguras, têm vontade de dar umas palmadas, têm vontade de sumir por cinco minutos.
Dão comida congelada, esquecem de ler a agenda, trocam o nome dos filhos.
Às vezes trocam uma fruta por um bolo só pra não brigar.
Mães têm dias ruins. Às vezes são elas que precisam de colo.
Às vezes elas só querem a SUA MÃE.
Mas no fundo todas as mães, cada uma do seu jeito e com as suas limitações, têm uma vontade enorme de acertar.
Todas elas têm um brilho incrível nos olhos quando falam de seus filhos.
Todas acham que seu filho é o mais lindo, o mais inteligente, o mais querido.
Todas amam louca e incondicionalmente e enfrentariam tudo para ver seus filhos felizes.
Elas morreriam por eles.
Elas matariam por eles.
Só as mães sabem a intensidade do que é ser mãe.

Uma homenagem a todas as mães e meu desejo de que todas vivam longa e intensamente esta aventura que é criar filhos neste mundo cheio de desafios.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Minha manhã de hoje merece um post

Ser mãe de dois, às vezes me faz sentir que estou num seriado tragicômico. 
Cada dia um novo episódio.
O relógio desperta e deu aquela vontade de não sair da cama. Seis graus não é lá muito ameno pra começar o dia.
Os minutinhos a mais que fiquei na cama transformaram o resto das horas numa gincana.
Tomamos café, enquanto o Caetano já dava sinais de que estava acordado. Nos fingimos de surdos!
Terminei de comer e busquei ele e o Ico no quarto e depois de beijinhos e abracinhos de bom dia, eles foram tomar o café.
O Caetano acha que é adolescente e não quer mais tomar mamadeira. Quer mingau de banana com Mucilon. Isso significa o dobro do tempo e o dobro de lambuzo. Vamos à terapia do ok.
O Ico já se vira, toma seu lanche e inclusive leva o pratinho na pia quando termina. Thank´s God!
Só que ele vai direto pro sofá ver desenho, entra numa espécie de bolha e esquece que tem que tirar o pijama, botar o uniforme, escovar os dentes, etc... e eu fico lembrando ele a cada dois minutos, até encher o saco e ir lá, vestir a roupa nele.
Já o Caetano odeia o frio e todas as manhãs é o festival da "sofrência" para tirar o pijama e vestí-lo. Tento manter a calma e a serenidade até a poeira baixar, porque depois de vestido e quentinho, normalmente ele para de chorar. Não foi o caso hoje. Óbvio.
Enquanto isso, eu ainda estou de pijama, pensando que em menos de meia hora tenho que dar um jeito na cozinha e me arrumar.
Quando finalmente entro no quarto e começo a me vestir, o Caetano vem, agarra em minha perna, implora por colo e eu fico desviando dele, enquanto tento achar algo pra vestir nesse frio de dar dó. Sabe aquela coisa que nós mulheres temos de olhar o guarda-roupas e pensar "não tenho nada pra vestir", pois é, não tenho mais tempo pra isso.
Percebendo que não dei atenção pra ele, Caetano resolve entrar no guarda-roupa, no calceiro, bate a cabeça e começa a sofrência parte 2.
Aí, o Francisco - o super mano - chega e tira o Caetano de circulação pra eu poder me arrumar.
Estou me maquiando e o Caetano volta e derruba minha maleta de maquiagem.
Aí minha paciência vai pro saco e eu resolvo o problema levando ele e o Ico antes pro carro. Coloco o Caetano na cadeirinha, dou um brinquedo barulhento pra distrair e peço pro Ico ficar com ele ouvindo música.
Entro e termino a função.
Finalmente, vou sair de casa. Pego minha marmita com o almoço, a fruta, a bolsa, a mochila do Caetano, as chaves do carro e da casa, meu celular, meu óculos, saio e tranco a porta.
Entro no carro e o Francisco tá choramingando por que tem frio nas orelhas e não sabe onde colocou a touca. Entro de novo em casa, acho a touca e estou pra sair, quando tropeço na caixa com mil peças de montar e quase me esparramo no chão. Largo um "pata ca parau" - isso mesmo, eu falo PATA CA PARAU, um palavrão permitido para menores. E fecho a porta sem olhar pra trás.
Chego na escolinha do Caetano, vou tirá-lo do carro todo encasacado, e ele perde o tênis na rua, volto pra pegar, saio toda atrapalhada com ele pendurado de um lado, a mochila dele do outro e entrego pra profe.
Tem mais um pra levar, ainda.
Chego com o Francisco no Santa, mega atrasado e reclamando que "a gente sempre se atrasa", como se a culpa fosse toda minha.
- Hoje tem aula de culinária, mãe. Tu deu o dinheiro?
- Claro, filho. Já dei faz um tempão.
- Ah, bom. Por que tu sempre se esquece.
- Francisco, a mãe não é perfeita. Eu tenho mil coisas pra fazer todos os dias, posso esquecer de alguma coisa, né?
- Tu nem tem tanta coisa pra fazer. Eu já arrumo a minha cama.
Enfim, terminado este lindo diálogo, vou pro carro e sigo pro trabalho.
Amanhã, vou acordar mais cedo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ser mãe é uma gangorra.

Quem disse que ser mãe é um mar de rosas?
Quem disse que trabalhar - mesmo sendo com o que se gosta - é um mar de rosas?
Quem disse que casamento ou qualquer relacionamento é um mar de rosas?
A vida é uma eterna gangorra, com altos e baixos o tempo todo e acho que é aí, nesta inconstância, que está o segredo para seguirmos em frente.
O 'desafio da maternidade', que tem gerado tanta polêmica, foi só mais uma destas brincadeiras sem muitas pretensões, mas que despertou nas pessoas sentimentos diferentes.
Afinal, não somos todos iguais. Nossas experiências não são iguais. 
E a maternidade tem várias nuances.
Eu sou mãe de dois meninos. Um de seis anos e outro de dez meses. 
Não fui mãe por pressão da sociedade. 
Ou por pressão do meu marido.
Não fui mãe por que acho que minha vida só seria completa se eu tivesse filhos.
Fui mãe por que eu quis.
Mas mesmo querendo muito, ser mãe não foi - e não é - fácil.
Eu acredito que tornar-se mãe é uma mistura de alegria e dor o tempo todo.
O primeiro ano de um bebê é cheio de desafios. 
Eu acho os primeiros três meses uma fase tão difícil que muitas vezes me perguntei "o que eu fui fazer da minha vida?". 
É desumano passar noites sem dormir. 
Não ter tempo de comer, ou de tomar banho. Ou se dar conta lá pelas onze da noite que tu ainda está de pijama.
É desumano perder a autonomia e ter que reorganizar a vida em torno daquele pequeno ser que precisa da gente para absolutamente tudo e não sabe sequer dizer o que quer.
Há dias em que a estafa física te deixa a beira de um ataque de nervos.
Têm dias em que o ataque de nervos é inevitável e o choro vem, e o desespero vem e a gente surta mesmo.
Muitas vezes amamentei chorando de dor.
Muitas vezes senti pânico ao ouvir o choro dos meus filhos, por não saber o que fazer.
Não tenho boas lembranças dos meses iniciais.
Tive depressão nos primeiros meses tanto com o Francisco, quanto com o Caetano e precisei de ajuda médica para passar por este período com mais tranqüilidade.
Mesmo que a mãe receba todo o apoio do mundo (do marido, das avós, ou de uma babá) o maior envolvimento recai sobre a mãe. Isto é fato.
Respeito demais as mães que não aceitaram o desafio por não se sentirem confortáveis com isso e mais ainda por expor este "lado B" da maternidade.
Mas o desafio pedia "momentos felizes". Talvez este tenha sido o erro. 
Respeito muito quem não quer ter filhos. Nem todo mundo quer.
Não acredito que para ser completa uma mulher precisa ser mãe.
Não acredito que todas as mulheres nasceram para ser mães.
Não acredito que uma mulher passe pela maternidade achando tudo o máximo e resolvendo com maestria e sorriso no rosto todos os problemas.
Não acredito que quem está pensando em ser mãe pense que vai ser fácil ou ache que vai ser feliz o tempo todo.
Mas eu acredito no amor e em tudo o que somos capazes de superar e fazer por amor.
E sei que mesmo sabendo de toda a dor que a maternidade possa causar (e há feridas que vão ficar expostas pro resto da vida) ainda assim, quem deseja ser mãe, quem deseja ter um filho (gerado ou do coração) vai encarar este desafio.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A solidão boa.

Eu nunca morei sozinha.
Grande parte da minha vida eu passei dividindo o quarto com a minha irmã e depois, fui dividir o quarto com o meu marido.                                                                                                                                                                                                                                                        
E acho que por isso eu sempre tive dificuldade de ficar sozinha.
Dormir sozinha? Nem pensar. Só se tivesse a TV ligada, me fazendo companhia.
Sempre gostei de estar no meio de gente, no burburinho, na companhia de alguém.
Mas o tempo foi passando e com a chegada dos filhos a casa foi enchendo - de barulho, de brinquedos, de atividades, de rotina - que são raros os momentos em que estou só comigo mesma.
Têm dias que sinto uma falta de mim. Há dias em que parece que me perdi no meio do caminho.
Não lembro de passar o hidratante, esqueço do perfume, não lembro quando foi a última vez que parei para ler um livro.
Fazia tanto tempo que não me fazia companhia. Mas hoje, tive a oportunidade de me reencontrar comigo mesma.
Eu só começava a trabalhar à tarde, mas o Fabricio tinha que ir de manhã. Como a escolinha abriu normalmente, levantei cedinho, como de costume, tomei café, arrumei o Francisco e o Caetano e levei pra escola. E com isso, ganhei algumas horas só pra mim.
Pode parecer pouco, mas quem tem filhos sabe como é raro tomar um banho mais demorado, ver o que se está a fim na TV, ouvir o som que se quer a hora que se quer.
Leva tempo pra retomar estas coisinhas simples.
Quantas vezes eu já fiz xixi (ou até cocô) com o Caetano pendurado nas minhas pernas.
Quantas vezes me atirei exausta no sofá e dois segundos depois o Francisco grita "manhêêêêêê".
Hoje nestas poucas horas só minhas fiz tudo o que eu tive vontade: organizei gavetas (amo fazer isso). Separei roupas pra doação.
Devolvi brinquedos e roupas que ganhei e que não usaria mais. Uma faxina daquelas com duplo sentido.
E entre uma gaveta e outra fui lembrando de como é bom estar comigo mesma. Sem culpa, sem pensar que é errado querer um tempo pra si mesmo.
Depois tomei um banho despreocupado, passei meu melhor hidratante, meu perfume preferido, fiz um make levinho e fui trabalhar com uma sensação de leveza, de paz.

Uma sensação de gratidão por tudo o que a vida tem me proporcionado e tudo que ainda tem por vir.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A casa pode estar zonada, mas o coração está em ordem.

Eu venho de uma família onde sempre foi proibido deixar louça na pia. Sair sem arrumar a cama era motivo de bronca. O foco lá em casa sempre foi organização. Podíamos brincar, espalhar coisas pelo chão, mas depois, tudo tinha que voltar pro seu lugar e a casa tinha que ter aquele ar de limpinha, organizada, impecável. Cada coisa tinha o seu lugar. 
Por um lado, isso nos ajudou a ter responsabilidade nesta convivência num mesmo espaço, tendo consciência de que também éramos parte. Mas por outro, me fez crescer com um leve TOC.
Durante muito tempo me sentia mal quando uma almofada estava fora do lugar, ou se eu tinha que deixar a louça na pia, por estar com pressa, ou até por preguiça mesmo. Ou se a cama estava desarrumada, ou com roupas por guardar. Isso me deixava mal. Muito mal. Parecia que a qualquer momento ia chegar a minha mãe e me dar uma bronca, mesmo eu já tendo a minha casa.
Mas quando fui mãe pela primeira vez comecei a me dar conta de que era praticamente impossível manter tudo sempre em ordem, com aquele pequeno explorador, usando todos os cômodos da casa para brincar, inventar e descobrir o mundo. E com o passar do tempo comecei a me desprender dessa mania de organizar. Me dei conta de que passamos tão pouco tempo juntos, que não vale a pena ficar me preocupando com a simetria dos porta-retratos do aparador. O pouco tempo que temos tem que ser de brincadeira, de conversa, de envolvimento, de aproximação. A roupa, a louça, a casa, tudo isso pode esperar. O Francisco não pode. Ele cresce tão rápido que é muito fácil perder o fio da meada. Eu pisquei, e ele começou a andar. Eu pisquei, e ele começou a falar. Nem me dei conta e um dia ele leu uma frase inteira (neste dia eu chorei). Ele tem as suas questões, seus conflitos, tenho que estar inteira pra dar o apoio que ele precisa. E hoje, com dois filhos, tenho ainda mais urgência em viver tudo com eles. É urgente brincar, pegar no colo, fazer cócegas, dançar, cantar, ouvir como foi o dia, ajudar no tema. É urgente dizer "eu te amo", colocar na cama, ler uma história, ou fazer uma oração antes de dormir. É urgente construir esta parceria, ter tempo pra rolar no chão, brincar de monstro, tomar banho de chuva. É urgente ser mãe. Sempre que volto pra casa no fim do dia, tenho a impressão de que a casa vive zonada. Nunca mais as almofadas ficaram no lugar certo, nunca mais as cortinas ficaram no lugar certo. Sempre tem um brinquedo em algum lugar da casa. Se não é do Francisco, é do Caetano. Tu sempre corre o risco de tropeçar em alguma coisa, sentar em cima de alguma coisa que apita e tomar um susto. Hoje, por exemplo, a pia ficou lotada de louças. A prioridade foi dormir dez minutos a mais e resolver a estrela de Natal (tema de casa do Francisco), que mesmo tendo ficado até quase onze da noite fazendo (Fabricio, eu e ele), não secou direito e precisou de arremates pela manhã. A fitinha de pendurar na árvore não ficou boa, e fui procurar outra fitinha porque o dono da estrela estava preocupado com isso. O Caetano acordou com um sorriso tão lindo, que tive que ficar amassando ele mais tempo do que o normal. O cheirinho dele é inebriante. Eu me transporto para uma outra dimensão quando cheiro aquele pescocinho gordo. Tudo isso é urgente. Então, não tem problema a casa estar zonada, se o coração estiver em ordem.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um dia de péssima mãe.

Desde que me tornei mãe tenho aprendido que a culpa é item de série na vida da gente. 
Mãe se culpa por tudo. Quando repreende um filho mais fortemente. Quando não consegue fazer uma refeição equilibrada por falta de tempo e deixa o filho comer qualquer coisa rapidinha de fazer. Quando não consegue contar uma história antes de dormir. Quando esquece de ler a agenda da escola. Quando esquece de comprar o presente de aniversário do amiguinho. Quando não manda suco no lanche. Quando não consegue brincar por que está podre de cansada. Quando deixa escapar um palavrão. Quando levanta a voz. Quando não tem paciência pra responder uma pergunta difícil (ou até uma fácil).
Eu poderia ficar aqui horas listando pequenas, médias e grandes coisas que nos enchem de culpa.
Mas quando eu tive meu segundo filho, proporcionalmente, minha culpa aumentou. Assim como proporcionalmente aumentou a quantidade de coisas para fazer, lembrar, arrumar, organizar, limpar, guardar e carregar. E isso que lá em casa somos super a favor da divisão de tarefas e todo mundo faz de tudo um pouco. Mas a impressão que tenho é que estas tarefas a mais não são compatíveis com minha memória. O pediatra dos guris já diria "viu? foi ser mãe depois de velha!"
E hoje eu tive um daqueles dias em que me senti uma péssima mãe. 
Esqueci da mochila da natação em casa, quando o Francisco adora nadar e o Fabrício já tinha deixado ele de sunga por baixo do uniforme, antes de sair pro trabalho. Morri de culpa por não ter separado os itens pra aula de culinária. Só duas coisinhas, queijo e um chocolate. O Francisco chegou de mãos abanando e eu toda sem jeito fui pedir mil desculpas pra profe, por ter falhado (de novo). 
Mas da mesma forma que me culpo, penso que não deveria pegar tão pesado comigo mesma. Tem tantas outras coisas que dão certo. Não é fácil mesmo conciliar tanta coisa junta. Tem horas que o cérebro dá uma travadinha e isso é normal e totalmente vida real. Aliás, assim como diz na música do Kid Abelha, "as coisas são mais fáceis na televisão". E acho que a gente tem que usar as armas que temos para ir colocando o trem nos trilhos. Usar os lembretes do celular, arrumar tudo na noite anterior, colocar mais responsabilidade no filho, para que ele comece a também ajudar nesta organização e tenha mais responsabilidade quando o assunto envolve as suas tarefas e deveres. Pedir mais ajuda, sem culpa e sem medo de parecer frágil. E até dar uma surtadinha às vezes. Afinal, quem nunca teve um dia difícil, ou se sentiu esgotado. O que não pode faltar nunca é o carinho, o amor, o "eu te amo", o cuidado, o zelo, a verdade em admitir que não somos perfeitos e que, mesmo falhando às vezes, continuamos amando muito e principalmente, tentando acertar. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pai pra toda a obra.

Quando eu e o Fabrício estávamos pensando se teríamos ou não mais um filho, decidimos começar uma terapia de casal para facilitar o diálogo. O detalhe é que a primeira consulta era na quarta e eu descobri que estava grávida na segunda. Então, a terapia já não era mais pra decidir, e sim, para lidar melhor com o fato de já ter acontecido (ops!). E falamos muito sobre o papel do pai no processo da gravidez e depois dela. O pai tem um papel de pilar de sustentação, para ficar apoiando a mulher, de forma que ela se mantenha de pé ao longo de todo o processo. E como faz sentido. Eu realmente não sei como seria se não tivesse o Fabrício ao meu lado. Ele sempre foi um paizão. Daqueles que participam de absolutamente tudo. E vamos ser realistas, ter um recém nascido em casa é algo que exige muita dedicação e atenção, praticamente vinte e quatro horas por dia. E neste processo a mãe é quem mais vai se dedicar ao bebê e a rotina troca fralda, dá peito, faz arrotar, faz dormir é bastante desgastante no início. É natural o cansaço. Só que se este cansaço for muito grande pode até prejudicar a amamentação e a qualidade da dedicação ao bebê. Fora a bagunça hormonal, que nos leva da euforia ao caos em segundos. Por isso, o pai tem que ser pai pra toda a obra, não só para trocar fraldas, acordar junto durante a noite, dar banho e fazer o bebê dormir, como para assumir algumas rotinas da casa, liberando a mãe para se recuperar das noites mal dormidas e evitar aquela estafa física, que nos impede até de raciocinar, muitas vezes. Durante muito tempo a prioridade será o bebê e a rotina com ele é um looping infinito e ao mesmo tempo imprevisível, já que o recém nascido demora para organizar seus horários, para estabelecer o sono e chora por absolutamente qualquer coisa, já que é sua única forma de comunicação. O que pode levar a mãe a passar o dia todo de pijama, esquecer de comer, esquecer até de ir ao banheiro. Eu, várias vezes me dava conta disso, quando já era tarde da noite. Ter apoio é fundamental para tornar todo este início mais fácil. Ser centralizadora neste momento não é nada bom. E isso eu aprendi. Não importa se o jeito de fazer é diferente. Cada um vai ter seu jeito e não significa ser mais ou menos certo. O importante é que seja feito.
Então, mamães, deixem os pais se envolverem, permitam que eles experimentem essa conexão com o filhote, que se sintam tão importantes quanto a mãe. Deixem as avós e as dindas ajudarem. Lavar uma louça, dar uma geral na casa, fazer uma comidinha. Estas coisinhas simples tornam tudo mais tranquilo e poder dormir quando o bebê dorme ou tomar um banho demorado não tem preço. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A leveza do segundo filho.

Nunca imaginei que o segundo filho seria tão mais fácil. 
Ser mãe pela segunda vez é (e está sendo) muito leve. Embora os primeiros três meses continuem sendo muito chatinhos (ao menos pra mim, que não gosto muito deste início), aquele medo de não saber fazer, de não dar conta, de não saber lidar com a cólica, com a falta de sono, com a amamentação, com o choro, parece não ter tanta força no segundo filho. É como se o fato de já ser mãe, me desse uma espécie de certificado de habilidade materna e me enchesse de segurança para lidar com as situações que vão aparecendo.
Confesso que ao longo destes cinco anos do Francisco, eu me esqueci de muitas coisas que aconteceram no início, mas quando algo acontecia com o Caetano, eu pensava: "Eu já passei por isso. Eu sei fazer." - e isso ia me fortalecendo e fazendo com que eu entendesse que eu daria conta do recado.
E é engraçado como o meu comportamento mudou no segundo filho. Me lembro que com o Francisco eu achava que tinha que ficar olhando pra ele vinte e quatro horas por dia. Acordava mil vezes pra ver se ele estava respirando, se não tinha se afogado, se não tinha se virado, enfim, pra ver se estava vivo. Comia com ele do meu lado e a cada garfada era uma olhadinha pra ver se ele estava bem. Muitas vezes fui ao banheiro com ele em meus braços, pra não deixá-lo sozinho e isso que muitas vezes era só o tempo de um xixi e se eu deixasse a porta aberta, ele estaria na minha linha de visão.
A mãe do Francisco era insegura, medrosa, se preocupava à toa, ligava para o pediatra por qualquer coisa, não relaxava nunca.
Já a mãe do Caetano encara tudo com mais tranquilidade, deixa ele mais livre, entende que eles não são uma pessoa só, permite que ele se expresse sem achar que tem algum problema e se tiver algum problema, sabe que será resolvido e resolve.
Claro que nem tudo são flores. Houve momentos com o Caetano em que achei que não conseguiria. Houve momentos em que dei uma surtada. Houve momentos em que tive medo e me senti desprotegida e frágil. Mas tudo passava mais rápido, se resolvia mais rápido e a vida seguia seu rumo.
E agora que ele chegou na fase que eu amo, que é aquela de bebezão, que já está quase sentando, que já brinca mais sozinho e demostra mais os sentimentos, que começa a comer as primeiras papinhas e todo o dia tem uma novidade, estou no melhor dos mundos e a vida segue ainda mais leve.


terça-feira, 3 de março de 2015

Ser feliz nas pequenas coisas.

Ontem Francisco e eu fomos ao shopping no fim do dia, pois eu precisava trocar um presente.
No caminho ele me fez um pedido:
- Mãe, podemos comprar um brinquedinho no Mac? (ele nunca quer o Mac Lanche, sempre quer uma casquinha e eu pago o brinquedo separado).
Eu poderia aceitar a proposta, mas tenho pensando muito em como fazer com que os passeios tenham outro atrativo que não comprar ou ganhar alguma coisa. Lá em casa sempre buscamos criar o Francisco mais desapegado do consumo, sem exagerar nos presentes ou criar rotinas que consideramos complicadas, como sempre que vai ao super ganha alguma coisa, ou sempre que se comporta, ganha alguma coisa. Presenteamos e "premiamos" o Francisco eventualmente e com motivos que fiquem bem claros para ele. E tem funcionado, pois sempre é especial e percebemos que desta forma ele valoriza muito mais.
Então neste caso, embora eu pudesse comprar o brinquedo, escolhi não fazê-lo e expliquei pra ele que ontem eu não tinha dinheiro para o brinquedo. Que iamos ao shopping para resolver o presente do vovô e voltaríamos pra casa. Ele fez um beiço, ameaçou chorar e disse:
- Mas eu queria muito aquele brinquedo, mãe.
- Vamos fazer assim, filho. Vai pensando se tu precisa mesmo ganhar o brinquedo hoje. A mamãe realmente não tem dinheiro para o brinquedo, mas para um sorvete a mamãe teria.
- Mas eu queria o sorvete e o brinquedo.
- Filho, a mamãe já te explicou. Pensa no assunto e depois a gente conversa.
Chegando no shopping, ele desce do carro e me fala:
- Eu já pensei, mãe. Acho que não preciso do brinquedo hoje. Pode ser só um sorvete, tá? Outro dia a gente compra, né? Quando tu tiver mais dinheiro.
E prontamente ele foi comigo onde tínhamos combinado e depois fomos buscar o sorvete.
Ele comeu bem feliz, brincou comigo de luneta, usando a casquinha do sorvete, comeu a minha torrada quase toda achando aquilo super engraçado e depois foi correr na pista da Centauro, que ele adora. Na hora de ir embora, olhou os filmes de criança que estavam em cartaz no cinema e combinamos de brincar de peteca e ioiô em casa.
E o dia terminou leve, sem estresse e com todo mundo sendo feliz nas pequenas coisas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Você está preparada pro segundo?

E lá se foram seis meses. O enjôo passou, a sensação de estar o dia todo num catamarã na maré alta passou e a vida acontece normalmente. Às vezes até esqueço que estou grávida, mas o espelho do meu quarto insiste em me mostrar que não, não estou tão normal assim.
Tem alguns sinais do avançar da gestação que vão tirando um pouco da dignidade da gente. Ter que colocar os sapatos com o pé em cima de alguma coisa, por exemplo. Ou levar um certo tempo todas as noites para ver de que lado a barriga vai ficar melhor acomodada e tornar o sono mais tranquilo. Ou passar o dia todo indo ao banheiro, fazendo xixi em gotas, porque o bebê já esta pressionando a bexiga. Ou ter dificuldade para lavar pernas e pés no banho. Mas tem uma coisa que sempre me apavora e nessa hora eu sei que a gravidez já está indo pra reta final: não conseguir enxergar a própria perereca no banho (antes que riam, minha mãe me ensinou a chamá-la assim).  Tu tenta olhar, mas tem uma montanha na frente e por mais que tu estique a cabeça e se curve toda, não tem mais como ver a dita cuja. Mas este post não é sobre a minha perereca, definitivamente.
Estes dias, encontrei uma amiga (mãe de um) no estacionamento de um supermercado e ela me perguntou:
- E aí, preparada pro segundo?
A resposta veio automática e com um risinho nervoso:
- Não. Não estou.
E realmente eu acho que não estarei preparada até tudo acontecer. Talvez o fato de eu já ter vivido a maternidade com o Francisco me deixe um pouco mais consciente do que esperar. Encarando com mais naturalidade as noites que passarei dormindo pouco, não ficando tão ansiosa quando o Caetano chorar e eu ainda não souber os reais motivos do choro, por não conhecê-lo tão bem. Ou ter mais paciência com a questão amamentação que pode levar um tempinho até fluir bem. Mas preparada, acho que não é a palavra. Eu acredito que o dia-a-dia com o bebê é que vai nos preparando e nenhum filho é igual ao outro (quem tem mais de um sempre diz isso). O Caetano vai ter as questões fisiológicas e as necessidades básicas que são comuns a todos os recém nascidos, mas ele já virá com a sua personalidade, o seu jeitinho particular e só a nossa convivência é que vai nos aproximar e criar aquele laço entre mãe e filho que torna os dois um só.
É claro que a experiência nos traz algumas facilidades, como por exemplo, saber o que funcionou e não funcionou e tentar não cometer pequenos erros anteriores. O segundo filho sempre ganha neste sentido. Mas confesso que muitas das coisas que vivi com o Francisco já sumiram da minha memória, sobretudo as partes menos boas. Acho que a natureza se encarrega disso para a gente se lembrar só das partes boas e assim, seguir procriando. Mas no meu caso, não pretendo ter o terceiro. Encerro aqui minha participação para a continuidade da espécie humana. Tenho convicção de que aquela máxima é verdadeira: um é pouco, dois é bom, três é demais.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Segunda gravidez. Tão igual, tão diferente.

Estes dias, falando com uma amiga, ela me disse algo em tom de puxão de orelhas:
- Tu tem que escrever sobre o Caetano, hein? Imagina o ciume... vários posts sobre o Ico e nada sobre ele. Um dia ele vai te cobrar.
Afi... isso é muito sério. Mas tenho que confessar que a segunda gravidez vem com um que de deja vu. E aí parece que não tem nada de novo pra contar.
Mas tem. Nenhuma gravidez é igual a outra.
Nesta, eu soube que estava grávida antes da minha menstruação atrasar. Me sentia engraçada, estranha, meio boba, até. Uma energia, uns pensamentos sobre como seria ter uma quarta pessoa em nossas vidas. Aquelas coxas gordinhas, o chorinho, o cheirinho, os pés de bisnaguinha. Eu sabia que estava grávida.
Mas assim como na primeira gravidez, quando eu vi os dois risquinhos, que apareceram em um segundo no papel molhado, eu fiquei cho-ca-da.
Como assim? Grávida de novo? Como isso foi acontecer (posso garantir que não foi a cegonha.)?
Depois do choque, como contar pro Fabrício?
Deixei tudo assim como estava e por skype disse que tinha deixado um presente pra ele no banheiro. Loção pós barba? Um jogo de toalhas novo? Um shampoo recém lançado no mercado? Eram muitos os chutes.
(Noups. Um filho. Beeeemmmmmm melhor.)
E chegando em casa, depois de ter ficado propositalmente incomunicável, abro a porta e dou de cara com ele, sentado no sofá, cho-ca-do.
- Amor, aquilo ali no banheiro, é sério?
- Sim. Dois risquinhos, positivo. Não é assim?
- Eu tô apavorado.
- A pessoa apavorada da relação sou eu.
Ele me abraça forte e no fundo eu sei que ele é o homem mais feliz do mundo.
(Ele pensa que eu não sei, mas ele teria um time de futebol inteirinho, se eu topasse e a conta bancária deixasse.)
Mas esta segunda gestação tem algumas diferenças bem grandes: eu enjoei (muiiiiiiiiiiiiitttooooo).
Eu vomitei (muiiiiiiiiiiiitttooooo). Eu não podia nem com bafo de asflato quente...
Não tive sono. Ao contrário, minha energia foi pro nível máximo. Pilha até uma da matina. Outro ponto: eu sentia uma fome inacreditável, minha barriga roncava a cada duas horas...eu tinha que largar tudo pra comer.
Mas ao mesmo tempo meu amor pelos azedos está sendo o mesmo. Pepino, laranja de umbigo, azeitonas, limão, muito limão, pimenta biquinho...igual a primeira gravidez.
Ah, a barriga... apareceu muito antes do que na primeira vez. Em três meses eu já estava me sentindo um dirigível. E agora, nem sei em que categoria eu me enquadro...a pancinha só cresce.
Sentir o bebê mexer. Taí uma sensação indescritível e maravilhosa sendo mãe de um, dois ou muitos mais. Não tem sensação mais gostosa, aquele chutinho que faz a barriga pular, quando tu menos espera. A sensação de poder que invade a gente quando nos damos conta de que temos a capacidade de gerar um ser dentro de nós.
Mas tenho que admitir que a segunda gravidez parece vir com um botão de tranquilidade.
Uma sensação boa de saber que já passamos por isso e deu tudo certo. Então, relaxa!
Pronto, saiu o primeiro post do Caetano.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O medo paralisa.

Faz um tempo que Fabricio e eu estamos conversando sobre ter mais um filho (ou filha).
Faz um tempo que estamos falando que merecíamos nos mudar para uma casa maior, mais confortável, com mais espaço, mais jardim, uma horta, quem sabe até um cachorro.
Mas a cada movimento que eu faço nesta direção, vem o medo e me paralisa.
Esta semana foi a morte do Gabriel, que de forma brutal e precoce foi tirado de perto das pessoas que amava, dos seus sonhos, foi impedido de seguir com seus planos. E em meio a toda a comoção, revolta e tristeza, infelizmente, o Gabriel é MAIS UMA vítima de um mundo caótico, onde valores como a vida não tem valor nenhum. Onde pessoas puxam o gatilho para sair sem levar nada, além da vida e dos sonhos de alguém, o que para ele (bandido) realmente não é nada.
E vendo esse mundo, que muitas vezes mais parece o inferno na terra, fico pensando que o melhor mesmo seria ter apenas o Francisco, pois já tenho medo suficiente de perdê-lo ou de faltar para ele.
Fico pensando que o melhor mesmo é continuar numa casa pequena, sem muito espaço, sem muito pátio, mas que é relativamente segura (será?) por estar num condominio fechado, com uma portaria 24h.
Mas é justo que as pessoas vivam com medo e abram mão de seus projetos e de seus sonhos?
É justo pensar que mesmo tendo trabalhado duro, batalhado e suado muito não seria bom trocar de carro, ou comprar um celular novo, ou um tênis bacana, pois vai chamar a atenção?
Nós estamos deixando de viver em função da criminalidade, que somada à impunidade, cria o pior dos mundos.
Temos alguns momentos de sossego, que até nos fazem ter a sensação de que está tudo bem, mas em seguida o medo vem e nos paralisa de novo.
As pessoas estão cada vez mais acuadas em suas casas, com medo de terem suas vidas invadidas pela violência. Saímos de casa rezando para voltarmos e rezando para que os nossos também voltem.
E eu realmente queria ter uma esperança genuina de que tudo vai melhorar, que o futuro reserva mudanças para melhor, mas realmente confesso que não sei. Talvez se nos unirmos e pressionarmos cada vez mais quem está no poder e que solicita nosso voto para trabalhar em prol das pessoas de bem, que trabalham, que ganham seu dinheiro honestamente, que pagam seus impostos, que acordam cedo, pegam trocentos ônibus e vivem com o pouco que tem com integridade e esperança, talvez comecemos a movimentar algumas mudanças. Talvez a solução seja até tomarmos o lugar de quem não está fazendo direito. Conhecermos a política, estudarmos e ocuparmos as cadeiras de quem está lá só para garantir o seu. Usar a nossa indignação para promover a mudança, para gritar bem alto "não estou satisfeito com isso!", para pensar em ideias que possam contribuir e dá-las a quem merece e que pode fazer acontecer. Existem muitas pessoas batalhando em várias instâncias para melhorar as coisas, mas são poucas, em comparação com a podridão já instaurada. Mas a cada nova eleição temos a chance de trocar frutos podres, por frutos bons. Pense nisso, e pense bem antes de apertar o botão da urna e confirmar seu voto! Por enquanto, a voz e o voto são as únicas armas que temos.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

É muito fácil ferir o sentimento de uma criança.

É bem comum que nós, adultos, tenhamos a capacidade de diminuir a importância de determinadas situações na vida de uma criança. Por serem pequenos e com pouca vivência, muitas vezes cometemos o engano de ignorar sentimentos, taxando como irrelevantes certas situações.
Hoje percebi (mais uma vez) como podemos ferir e magoar uma criança - sem perceber - pelo simples fato de acharmos que é tudo muito simples ou sem importância.
Ontem percebi que o Francisco estava com um início de diarreia. Pode ter sido algo que ele comeu, pode ser de algum início de virose. Enfim.
Hoje cedo, acordei ele como de costume e ele foi tomar o café da manhã, enquanto eu me arrumava.
De repente, sem mais nem menos, ele chega pra mim e diz:
- Mãe, eu queria trocar minha roupa agora.
- Não quer tomar teu lanche primeiro? - e antes de eu terminar a frase ele já estava sem roupa e meio que escondendo a cueca.
- Filho, pq tu tirou a cueca? Tá molhada? Não acredito que tu deixou escapar xixi de novo.
Quando ele desaba chorando e eu percebo o que tinha acabado de fazer.
- Não foi xixi, mãe. Eu "querio" fazer cocô e caiu na cueca.
Fiquei tão mal. Acolhi ele no meu colo, abracei, beijei e pedi desculpas por não ter entendido o problema dele. Disse que não fazia mal, que ele estava com um dodói na barriga e que por isso tinha acontecido aquilo. Que eu mesma já tinha passado por isso quando era criança e que não tinha problema nenhum. Não precisava se envergonhar e nem ficar triste. Eu ia lavar a cueca e estaria tudo resolvido.
Ele foi se acalmando. Voltou pra terminar de lanchar e foi assistir um desenho.
Peguei a agenda dele e fui anotar a questão da diarreia, para cuidarem da alimentação e fossem rápidos quando ele quisesse ir ao banheiro, quando ele chega pra mim e diz:
- Mãe, tu não tá escrevendo que eu tenho diarréia, né?
- Não filho, só estou avisando a profe que mandei a camiseta que ela te emprestou semana passada na mochila.
- Tu promete que não vai avisar que eu tenho diarréia.
- Prometo.
Aí chamei a profe num cantinho e pedi que ela não comentasse com ele o que eu havia escrito na agenda.
E no caminho para o trabalho fiquei pensando como é fácil magoar uma criança se não dermos a real importância para as suas questões. Para nós, pode parecer uma bobagem, mas para elas, é algo muito sério e que precisa ser acolhido, fazendo com que eles sintam que estão tendo espaço para dialogar e que, genuinamente, nos importamos com eles.
Tenho tentado exercitar esta sensibilidade, esta capacidade de me colocar no lugar dele, de tentar me sentir como ele pode estar se sentindo, todos os dias. Às vezes tratar uma criança como adulto é algo meio que automático, pois é difícil encontrar o limite entre tratar como criança pequena demais e "mimar", atrasando o desenvolvimento, e tratar como adulto cedo demais, acelerando etapas e não dando espaço para a criança experimentar o seu tempo. Cada fase é totalmente nova, com outras questões, outros sentimentos, a relação com a criança também muda e neste processo de mudanças constantes, os erros fazem parte do aprendizado. Acho que o segredo é tentar não se culpar em excesso, mas sim, refletir sobre nossas atitudes e pensar em como poderíamos fazer diferente numa próxima vez para minimizar o sofrimento de ambos.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Eu quero a minha mãe.

Já é a segunda vez que ficamos com nossos sobrinhos Teteu (6 anos) e Laura (3 anos) lá em casa para proporcionar uns momentinhos de "casal sem filhos" para minha irmã e seu marido, afinal de contas, com dois filhos o "buraco é mais embaixo". E é sempre uma festa. Noite do pijama significa ir dormir mais tarde, espalhar todos os brinquedos possíveis pela casa, assistir filminho na TV e fazer lanches bem delícia (que eles escolhem). Desta vez, além de tudo isso (que já foi instituído como um padrão básico do evento) levamos todos ao teatro. A peça em questão era Romeu, Pipoca e Julieta. Baseado no romance de William Shakespeare, a peça contava a história de um casal apaixonado que havia se conhecido no baile da linguiça (isso mesmo), e em função do ódio entre suas famílias, era impedido de namorar. O palhaço Pipoca era o cupido da história e fazia de tudo para juntas os dois. Embora os meninos estivessem amando e morrendo de rir com a história, percebi que tinha uma pessoinha se sacudindo no meu colo: era a Lalá, soluçando de tanto chorar. Demorei pra perceber. Ela chorava tão baixinho e a peça era bem barulhenta. Perguntei:
- O que foi, Lalá. Não está gostando do teatro?
- Não. Eu queria sair daqui, didi.
- Tudo bem. Vamos dar uma voltinha, então. Eu nem estou gostando tanto desta peça, mesmo.
Peguei a pequena pela mão e saímos do teatro.
Então, ela olha pra mim e fala a frase que é o pior pesadelo de quem fica com crianças pra dormir em casa:
- Eu quero a minha mamãe. Me leva pra minha mamãe.
Só que a mamãe estava vivendo um momento a dois com o papai e eu não gostaria de atrapalhar de jeito nenhum. Então, respirei fundo e fui tentando mudar o foco.
- Lalá, o que tu acha de a agente dar uma voltinha na quadra? Só eu e tu?
- Pode ser, didi.
Saímos caminhando, bem devagarinho. Eu mostrando algumas flores e coisinhas que eu ia percebendo pelo caminho que podiam interessar a ela e fazê-la esquecer da mãe (pelo menos naquele momento).
Depois de um tempinho andando, ela diz:
- Vamos voltar, Didi?
- Tu quer voltar pro teatro?
- Não. Quero ficar ali na frente esperando os meninos.
- Tá bem. Tem um sofá ali (no saguão) e podemos sentar ali e esperar.
Sentamos e eu mexendo na bolsa, descobri um pirulito.
- Quer um pirulito?
- Sim.
- Didi?
- O que foi, Lalá?
- Posso ouvir músicas no teu celular?
- Claro.
Coloquei Daft Punk, que ela adora e ficamos as duas atiradas no sofá ouvindo.
- Acho que agora não tenho mais medo.
- Tu quer voltar pro teatro e ver o Pipoca?
- Sim. Quero, sim.
Entramos, procuramos um lugar mais afastado do palco e ela assistiu o resto da peça e morreu de rir.
No final até fotos com a Julieta ela quis tirar.
E não perguntou mais da mãe até o outro dia.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Quatro anos: a segunda adolescência.

Estou meio sumida do blog, mas tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que acabei deixando o Projeto Cegonha um pouquinho de lado.
Mas o Ico está passando por uma fase meio estressante e precisava dividir isso com vocês.
Já passei por alguns momentos complicados com o Francisco.
O primeiro deles foi pertinho dos dois anos, quando eu tinha a sensação de que um ser rebelde tinha tomado conta do meu filho e transformado ele num pequeno monstrinho: nervoso, agressivo, chorão e birrento. A cada não, sobravam tapas, puxões de cabelo e, não raro, mordidas.
Mais de uma vez me tranquei num lugar isolado da casa para chorar sozinha, tamanho era o nervosismo e a sensação de impotência de não conseguir controlar um bebê de menos de dois anos. Aí fui ler sobre esta fase e descobri que é a primeira adolescência dos pequenos. Um momento muito delicado de transição da fase bebê para a fase criança, onde muitos conflitos tomam conta deles, causando uma avalanche de sentimentos, como frustração, raiva, angústia e medo, que eles acabam descontando nos pais.
Tentando sempre pensar pela ótica de que, quem ditava as regras éramos o Fabrício e eu, sempre fomos contendo ele, colocando de castigo, quando era o caso, sendo firmes (e a voz firme, normalmente funciona) e aos poucos este período complicadinho foi nos deixando.
Agora aos quatro anos, estamos passando por um novo momento com o Ico. Ele já é um menino que consegue se expressar, que reage aos ambientes onde vive, que sabe o que quer (ou pensa que sabe) e que quer, a todo o custo, fazer prevalecer a sua vontade. Taí a segunda adolescência.
Como eu gosto de dizer, tem que ter um saco blindado, às vezes.
Na hora de desligar a TV, foi muito cedo. No momento de tomar banho, ainda tinha outra coisa melhor pra fazer. Na hora de comer, ainda não tem fome. Na hora de dormir, ainda não tem sono.
A roupa não é a que ele queria, o tênis está apertado demais, a bermuda grande demais. Parece que nada está bom.

Estes dias não cedi num destes momentos e ele me disse bem assim:
- Um dia eu "querio" ser um Rei.
- Um rei, Francisco?
- Sim. Se eu for um rei todo mundo vai fazer só o que eu quiser.

Então, mais uma vez, temos que relembrar a todo o momento de que os adultos somos nós e tentar a todo o custo colocar limites e mostrar que ele ainda não tem condições de decidir sozinho o que vai fazer. Que ele é só uma criança e que existem coisas que não têm negociação. A choradeira é inevitável e na fase do vocabulário a todo o vapor, às vezes temos que ouvir algumas palavras ditas entre os dentes, como "sua meleca", "sua gosma", "eu não gosto mais de você" e usar a terapia do ok para saber que é só mais uma fase e que se todo mundo fizer a sua parte direitinho vamos sair dessa sem maiores traumas.

E vocês? Qual foi o pior momento na educação do seu (ou seus) filhotes?


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Francisco.

Ele sorri com os olhos.
O seu sorriso ilumina o dia mais escuro.
O carinho das suas mãos tão pequeninas, manda para longe tudo o que não é importante.
Ele me ensinou que existia dentro de mim um tipo de amor que eu jamais imaginei sentir.
Me mostrou que sou capaz de coisas que nunca pensei realizar.
Me ensinou sobre generosidade, desprendimento, paciência, humildade, criatividade e amor.
E me fez enxergar que nada tem mais valor do que simplesmente ser feliz:  com o que se tem, com o que se é, com o que se pode ser.
Depois dele, eu nunca mais passei um dia sem dizer "eu te amo".
Depois dele, eu nunca mais passei um dia sem ouvir "eu te amo".
Às vezes me pego pensando nele e invariavelmente, meus olhos se enchem de lágrimas. Pura felicidade por ter a sorte de ter perto de mim alguém assim tão especial e que só me faz querer ser melhor, todos os dias.
Hoje fazem quatro anos que ele nasceu e neste mesmo dia eu nasci também.




segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quando um tapa dói na alma.

Fiquei pensando se deveria ou não escrever este post, pelo simples fato de que ele relata algo de que não me orgulho. Mas decidi escrever, pois sei, que quem é pai ou mãe vai passar por isso um dia.

Quando eu fui criança não havia bullying. As crianças apontavam os defeitos umas das outras, debochavam e até eram bem cruéis, às vezes. Mas era só isso. Sem um nome diferente e nem tanta repercussão. Ficávamos de mal uns dias, não brincávamos mais com este ou aquele amiguinho, contávamos em casa, para as profes e tudo acabava se resolvendo. Eu ter trocado uma festa de 15 anos por uma plástica nas orelhas foi graças ao tal bullying. Mas tenho que admitir que fiquei bem melhor.

Da mesma forma como não havia recriminação às palmadas. Aliás, o que havia era o incentivo a elas, como forma de impor limites, educar e repreender. Eu até que levei poucas palmadas. O que mais levei foram varadas. Me lembro bem daquela árvore de chorão no nosso quintal, que tinha galhinhos finos e tão longos, que quase faziam a volta nas pernas. Não era nada bom levar uma daquelas. A árvore de chorão era altamente eficiente na repressão de travessuras.

Da geração de pais de hoje foi tirado o direito à palmada. O ato de bater em um filho se tornou algo extremamente condenável, porque tudo indica (e não digo que não faça sentido) que bater não resolve nada. Tanto é que lá em casa, tudo sempre se resolveu na base da conversa, dos pequenos castigos, da cadeirinha de pensar, do brinquedo que fica "imbrincável" uma semana ou mais, do corte da televisão ou do chocolate no final de semana.

E fomos levando assim até que na semana passada o Francisco nos desafiou tanto, mas tanto, que no final de tudo o que restou foram 4 palmadas na bunda dele e uma noite inteira de extrema culpa para mim. Me sentindo uma monstra, dormi mal, chorei sozinha e fiquei pensando se não poderia mesmo ter resolvido de outra forma. E a resposta é simples: até poderia, mas não foi possível naquele momento.

Como é difícil educar um filho. Saber o limite entre ser dura demais e branda demais. Conseguir ler nas entrelinhas quando a criança está te manipulando (e eles são ótimos manipuladores, vai por mim). Entender o momento certo de punir, de valorizar, de incentivar, de repreender.

Formar homens e mulheres de valor, respeitosos, que saibam lidar com as oscilações da vida, com os inúmeros nãos ao longo do caminho, que tenham uma postura de atitude diante dos desafios, que batalhem por um lugar ao sol, aceitando suas qualidades e seus defeitos, tudo passa pela edução, que é de total responsabilidade dos pais. Educar começa em casa e depois, continua na escola. E o tempo é curto. Muitos alertam que a base da formação do caráter de uma criança acontece até os seis anos e que depois é bem mais complicado educar, pois a base do caráter já está formada.

Não pretendo voltar a dar umas palmadas no Francisco, mas não posso prometer. Embora não queira repetir o modelo de educação que eu e muitos da minha geração tiveram, onde havia muito pouco espaço para o diálogo e tudo era muito unilateral.

Educar com base no amor é muito mais fácil. Uma criança precisa respeitar os pais pela autoridade que eles representam e não com base no medo. 

Temos ainda dois anos pela frente e gostaria muito acreditar que estamos no caminho certo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Francisco e o show de uma música só.

Estes dias eu estava lembrando de momentos engraçados que passamos com o Francisco nestes quase quatro anos e me lembrei de um episódio que merecia ficar registrado no blog.

O Francisco com pouco mais de dois anos e ainda apaixonado pela dupla de palhaços Patati, Patatá nos pediu pra ir no show deles, em Novo Hamburgo. Mesmo não sendo o melhor dos programas na nossa opinião, resolvemos fazer a vontade dele. Durante as duas semanas que se seguiram, ele só falava nisso:

- É hoje o show do Patati, Patatá?
No outro dia.
- Já é o dia do show, mãe?
No outro dia:
- Tá demorando muito pro show, pai. Não é mesmo hoje?

Até que finalmente chegou o tão esperado dia. E que dia: um frio daqueles, chovendo, o Francisco com faringite e eu e o Fabrício sem a mínima vontade de sair de casa. Mas para o Francisco era o dia mais importante da vida e ele passou o tempo todo falando no assunto. A tarde foi passando e resolvemos tirar um cochilo, afinal o show era só às 16h00 e aquela chuvinha pedia uma soneca em família.
Acoredi num sobressalto, meio sonhando, meio acordada, me lembrei do compromisso e olhei no relógio, que marcava 17h.
Meu Deus! Pulei da cama, chamei o Fabrício, acordamos o Francisco, mal nos vestimos e fomos. Não queria ficar com este peso na consciência.
Chegamos lá esbaforidos e encontramos um mar de crianças e pais e lá (mas bem lá) na frente estava a dupla mais pop da criançada.
O Francisco foi pra garupa do Fabrício e empolgadíssimo cantou uma música inteirinha, coisa mais amada.
Quando termina a música, os palhaços falam:
- Valeu turminhaaaaaaaa. Foi demaaaaaiiisssss. Até a próxima! E vão embora.
Eu olhei pro Fabrício com uma cara de culpa, pensando que o Francisco ia colocar nosso nome na boca do sapo quando fizesse 18 anos e antes que eu fosse cortar os pulsos, ele com os olhos brilhando e um sorrisão no rosto, nos chama e comemora:
- Mamãe, papai, eu "adorô" o show do Patati, Patatá.

Até hoje lembramos deste dia e damos boas risadas. As crianças tem um jeito todo especial de ver a vida e isso é o que torna a infância uma fase tão sublime.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Incrível Hulk, o espinafre e o omelete.

Toda mãe vai passar por isso um dia: até os dois anos o filho (a) come de tudo, não faz cara feira para quase nada e de repente, como se apertassem um botão secreto, ele simplesmente começa a torcer o nariz para alimentos já conhecidos, e a frase "não gosto disso" começa a virar rotina na hora das refeições.
O espinafre foi um dos renegados pelo Francisco e eu estava inconformada, porque amo espinafre e adoro fazer receitas com ele. Ontem, tinha um pacotinho de espinafre dando sopa na geladeira e eu pensei: é hoje que vamos fazer o espinafre voltar para o cardápio.
Enquanto o Francisco terminava o banho, montei a estratégia: usar a fixação dele pelos super heróis para criar um prato cheio de super poderes. Peguei dois ovos (ele ama ovos), bati com um pouquinho de sal e alguns temperinhos e muiiiiito espinafre. Ficou com uma cor verde bem escura, a cara do incrível Hulk. Gritei pro Francisco:
- Filho, sabe o que a mamãe está fazendo pra gente jantar? O omelete do Incrível Hulk.
- Noooosssa, mãe. Tráz aqui pra eu ver?
Levei o potinho pra ele, que olhou e disse:
- Acho que não vou gostar.
- Eu não tô acreditando que tu vai deixar de ter os poderes do Hulk.
- Mas mãe, eu prefiro os poderes do Batman.
- Tá, outro dia a gente faz uma comida com os poderes do Batman. Hoje é o poder do Hulk.
Ele saiu do banho desconfiado. Coloquei o pijama e convidei ele pra colocar o omelete na frigideira comigo. Ele preferiu ver TV. Fiz o omelete (na verdade rendeu dois omeletões) e coloquei na mesa.
Chamei ele, que sentou, olhou e disse:
- Eu não vou gostar, mãe.
- Como assim? Tu nem experimentou?
- Me dá um pedacinho, então.
Coloquei uma tirinha no seu prato e ele com uma cara de dar dó, colocou a ponta da lingua no omelete e disse:
- Não, não gostei.
- Francisco, só um poquinho! Experimentar não é isso. Experimentar é colocar um pedaço na boca e mastigar. Tem que dar tempo pra tua boca ver se gosta ou não.
- Tá, mãe. Colocou um pedaço bem maior e mastigou. Nisso, fui pegar uma coisa no fogão e quando voltei, tinha comido tudo.
- E aí, filho?
- Mãe, esse omelete do Hulk é muito bom. Coloca um pedaço dentro do meu sanduíche, com azeitona e queijo. Daí tu faz sanduiche quente com omelete do Hulk dentro. Acho que é uma boa ideia.
Resultado? Ele comeu o omelete dele todinho e metade do meu, mais o sanduíche.
E para finalizar com chave de ouro, ao invés de pedir suco pronto, ele me "ensinou" a fazer limonada, igual a que o papai faz pra ele.
Depois veio me mostrar como estava forte e como pulava do sofá bem alto e fazia "golpes de força, muito fortes."
E eu fiquei rindo sozinha e pensando em como a gente pode usar o imaginário infantil a nosso favor, em diversas situações. Vale pro espinafre, vale pro comportamento, vale pra tudo.
E aí? O que vocês já fizeram para convencer seu filho (a) a experimentar algo novo?


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Muito mais do que mães com açúcar.

Eu não tive a chance de conhecer a minha avó paterna. Ela morreu muito cedo, vítima de um câncer bastante agressivo. Mas apesar disso, me sinto muito conectada com ela. Cada vez que vejo a sua foto na carteira do meu pai, percebo o quanto somos parecidas fisicamente. Ela era uma mulher de expressões fortes, cabelos escuros e um olhar muito profundo.Não conheço seu sorriso, porque não era costume sorrir nas fotos naquela época. Mas às vezes me pego pensando nela sorrindo.
Minha avó materna partiu quando eu tinha uns sete anos. Se eu não me engano foi no dia sete de setembro. Me lembro que não me deixaram ir ao enterro para que eu não sofresse, já que éramos muito apegadas. Ela morava ao lado da nossa casa e inclusive tinha uma porta - uma especie de passagem mágica para mim - sempre aberta do nosso quintal pra sua casa. E eu usei muito esta passagem.
Quando minha mãe queria me dar umas palmadas, eu era a mais rápida em cruzar a fronteira e me aconchegar na barra da saia da minha vó Eva, que enchia a boca para falar "aqui em casa, tu não briga com a Lolinha", sem o menor interesse em saber o que eu havia aprontado. Mesmo sabendo que eu era medonha. Quando eu sentia o cheirinho de guisado e daquela couve refogada bem fininha que ela fazia (posso sentir agora mesmo, escrevendo este post), eu era a primeira a me sentar à mesa pra almoçar com ela. Quando as coisas não estavam muito boas para o meu lado lá em casa, eu dormia na casa dela. Foi ela que me inspirou a gostar de cozinhar, porque sempre me deixava sentar no balcão da pia ou colocava uma cadeira pertinho dela pra eu acompanhar o que ela estava fazendo e hoje eu repito este gesto com o Francisco. Ela me levava na feirinha para me ensinar a comprar legumes e verduras e apesar de eu ter roubado uma maçã e ter fugido dela, fazendo com que ela passasse a maior vergonha, ela me perdôou e entendeu que foi uma "peraltice" e que não iria mais acontecer. Ela era ruiva e me lembro bem do dia em que fomos tomar banho juntas e eu constatei -chocada- que ela era ruiva "até na perereca" e morremos de tanto rir.
Para mim a casa da vó Eva era sempre mais quentinha, mais cheirosa, eu podia ver televisão até mais tarde, não havia regras e em compensação, sempre tinha um docinho pra comer. Parecia que quando ninguém me entendia, ela sabia exatamente o que estava acontecendo comigo. A impressão que eu tinha é que ela conseguia ver dentro de mim. Fico triste por não ter minhas vovós pertinho de mim e principalmente, pelo fato de o Francisco não ter conhecido as bisas.
Mas peço a Deus todos os dias que deixe com que ele conviva com as suas vovós muito mais do que eu convivi com as minhas. Ter avós por perto é um presente e uma chance para nossos pais se experimentarem mais leves, mais bobos, menos críticos, menos preocupados, menos educadores e menos responsáveis. Eu acho um amor quando o Francisco me conta que na casa da vovó Vera ele come salsicha, bolacha recheada e chocolate sempre que ele vai lá. Assiste televisão o quanto quiser e toma muito suco. Na casa da vovó Vera ele sempre come tudo, tudo. O feijão da Vovó Vera é sempre um sucesso. Com a vovó Cleci ele sempre busca um colinho e ela sempre tenta entender suas manhas e toda a vez que a coisa encrespa, puxa ele pro seu lado e diz "vem com a vó", mudando completamente de assunto e deixando a bronca pra mais tarde, quando a gente nem lembra mais o que ele tinha aprontado. E mesmo que digam que os pais educam e os avós estragam, eu tenho que admitir que é um estrago que só faz bem. Um viva enorme para as vovós.